UTI 2012

Era junho de 2012 quando ela foi internada, com quadro de insuficiência renal crônica. Estávamos no HGF (Hospital Geral de Fortaleza) e na época existia o famoso piscinão, onde a realidade era como se estivéssemos numa guerra, onde os doentes ficavam espalhados no chão em macas improvizadas, esperando vaga em outros hospitais. Hoje eu vejo que estávamos em uma guerra mesmo, onde nossos inimigos além das doenças, era e é um governo corrupto onde as verbas de assistência eram enfurnadas em seus bolsos, ou suas cuecas e onde os mesmos deixavam seu povo a mercê da morte.

Depois de 25 dias, ela ficou muito doente, contraiu uma encefalite viral e seu estado era de convulsão permanente, e se fazia necessário uma UTI, urgente.

A situação era tão crítica que para quem não sabe o idoso na ordem de prioridades literalmente não tem vez, como existem muitos doentes e poucas vagas em UTI é escolhido o que mais tem condições de sobrevivência, e até então não sabíamos disso, o que nos fez tremer dos pés à cabeça quando ouvimos sem querer sobre essa modalidade funesta de “roleta russa”, onde que se por ventura o outro paciente estivesse com condições melhores, nossa “véinha” ia ter que perecer onde estava. Depois da avaliação dela e de outro paciente que também estava mal, não por sorte, mas pela obra divina quem iria para uma sala onde eles chamavam de Semi-UTI era ela, a D. Irene. Imediatamente ela foi sondada, intubada e levada a essa sala onde todos os pacientes em estado grave eram de mantidos um bem próximo aos outros, na parte terrea do hospital, correndo o risco de serem infectados com outros vírus e doenças. Na hora ficamos sabendo que ali deveria ser provisório, por que o que ela precisaria era de uma UTI adequada e um remédio chamado ACICLOVIR injetável, que o valor de cada ampola era muito caro, muito acima de nossas condições, na época o valor de cada ampola era R$ 1.200,00 e ela precisaria de 21 doses, ou seja, se fossemos para pagar teríamos que arcar com R$ 25.200,00.

De imediato perguntamos quando que ela iria para UTI adequada e a resposta que tivemos era de que não teria previsão, tendo em vista que só tinha um leito vazio e que o mesmo estava com problemas de manutenção. Como assim? Manutenção? Minha mãe irá morrer aqui por que a UTI está sem luz, ou sem ventilação? Daí perguntamos: E o remédio? E eles disseram: Não tem no hospital!! Eu questionei: Ah tá, não tem?? E eles afirmaram: “Sim, não tem!!!”

Lembro que isso já era madrugada, e nós (eu e minha irmã) estávamos exaustas, por que vinhamos de uma maratona de mergulhos nesse piscinão de morte, e nessa hora eu simplesmente não tinha mais esperança em nada, mas tinha fé e sabia que não era justo tanta luta acabar ali, por descaso humano.

No fundo eu senti que tínhamos uma entidade maior em poder que não havia nos deixado ir embora, por que aconteceria alguma coisa. Fomos falar com a assistente social para esclarecer tudo por que estava tudo muito confuso, e a mesma nos disse que não teríamos mais o que eu fazer, e quase sussurrando ela nos disse que deveríamos ir na DEFENSORIA PUBLICA DA SAUDE, por que naquela situação somente eles poderiam nos ajudar, mas enfatizando que seria impossível por que eu iria precisar de um laudo médico, e que nenhum médico ali iria nos dá por receio de perder o emprego. Saímos da sala da assistente social mais derrubadas do que entramos, mesmo assim combinamos de tentar com o médico que estivesse de plantão. Foi quando de dentro da sala saiu um jovem médico, sujeito novo, com aspecto de muito cansado, mas muito solicito conosco. Perguntamos com ela estava (deixando claro que perguntávamos a todos que saiam daquela sala como ela estava) e ele disse que estava na mesma, necessitando da UTI adequada e das 21 doses de ACICLOVIR. Na hora, criamos coragem e já sentindo que teríamos um NÃO como resposta pedimos a ele o tal laudo, e como obra de Deus mesmo, ele pediu para a gente esperar, e depois de 15 minutos ele veio com o mesmo preenchido à mão e carimbado. A sensação era de incredulidade, por que aquilo não era impossível? Quer dizer, o “impossível” estava em nossas mãos naquele momento.

Na manhã seguinte eu amanheci na então desconhecida DEFENSORIA DE DEFESA DA SAUDE PUBLICA DO ESTADO DO CEARÁ, que ficava na Avenida Santos Dumont, cheguei tão cedo que se distribuíssem senhas a minha seria a 0 (zero). Às 7:00hs eu fui atendida pelo então defensor público, onde este ficou sem entender a desculpa dada por esta vaga da UTI estar inabilitada, lembro que ele disse: “Como assim problemas de manutenção? E o ACICLOVIR eles não têm? ” eu somente repassei o que tinham nos dito que esse medicamento somente um hospital no Ceará tem em sua farmácia, que era o temido Hospital São José de Doenças Infectocontagiosas (o temido eu irei explicar o motivo em outro momento, por que tivemos a inarrável oportunidade de derrubar esse título de temido numa experiência posterior), e me calei em seguida sem ter noção do que iria acontecer, mas tendo como resposta da autoridade que estava me assistindo que eles teriam que ver uma forma de conseguir esse medicamento, uma troca ou uma compra com urgência.

Logo após a conversa, ele prontamente pediu para que a secretaria formalizasse o processo, junto com o laudo, e nossos documentos. Tudo foi muito ágil, a conversa, o atendimento, e no termino ele disse que eu fosse embora que ele iria dar continuidade. De lá fui direto para o HGF onde minha irmã já estava desde cedo.

Nossa convivência com os técnicos de enfermagem era tamanha que já éramos conhecidas docemente com as “filhas da D. Irene”, tínhamos acesso livre a emergência por que os seguranças já nos conheciam. E passamos este dia nos corredores, nos escondendo por que também não queríamos prejudicar o pessoal da segurança, nem os enfermeiros.

Ficamos nos escondendo e esperando abrir a porta da semi-UTI para pelo menos vê-la de longe, sem poder sentar, nem tomar agua por que tínhamos medo de sair do hospital e não conseguir entrar. Foi quando uma das enfermeiras que sabiam da nossa permanência no hospital veio em nossa direção sorrindo e chorando, dizendo que estavam preparando ela para subir para tão sonhada “UTI adequada”, que eles não estavam entendendo como consertaram tão rápido esse leito, mas que ela iria subir em alguns minutos.

A sensação que eu senti foi de que não estava sozinha, que nas minhas orações eu sempre roguei à um Deus que era conhecido com o Deus do Impossível, mas que até então só tinha atendido a meros pedidos banais perante a gravidade daquilo que eu estava vivendo, mas naquele momento nós estávamos tendo a chance de sentir poder da sua soberania, a sua fidelidade e o que o amor dele por mim e por elas (Irmã e Mãe) era imensamente além daquilo que eu esperava. Nas horas posteriores estávamos nós duas, vendo ela, nossa véinha, sendo conduzida para o leito da UTI Adequada, conseguido depois da intervenção jurídica de uma DEFENSORIA DE DEFESA DA SAUDE PUBLICA DO ESTADO DO CEARÁ até então desconhecida, desacreditada, mas que foi fundamental na luta dos meus direitos como cidadão desamparado, que era assim que estávamos, desamparadas.

Por isso esclarecemos e informamos que se por ventura for necessário a UTI adequada para seus idosos, busquem a assistência social do hospital, peçam um laudo da atual realidade do paciente, e não demorem vão à DEFENSORIA DE DEFESA DA SAUDE PUBLICA DO ESTADO DO CEARÁ, procurem nosso defensor especializado nesse assunto. O endereço deste órgão vai estar no menu de endereços importantes. E lembrem-se: Na “roleta russa” que é o nosso sistema de saúde, nosso idoso não tem prioridade, você não está numa fila de banco, a vaga que deverás lutar é pela vida do seu pai ou de sua mãe, e nessa fila o medo e a sensação de impotência são massacrantes.