A verdadeira irmandade, o laço delicado que se fortalece, ou não!!!

Sempre fomos muito unidas, sempre nos respeitamos, e nos admiramos, nunca fomos de brigar, nos agredir verbalmente, muito menos fisicamente. Apesar da diferença de idade, eu e minha irmã sempre fomos muito parceiras, e apesar dela ser mais velha, sempre a tratei com sentimento de proteção, e isso é notório, mesmo sendo eu a derradeira. Os sete anos de diferença que nos separa nunca foi fator impeditivo para troca de experiências, de conselhos e de histórias hilárias, muitas histórias engraçadas digam-se de passagem.

Quando nossa mãe sentiu os primeiros sintomas de uma doença que ia mudar completamente nossas vidas, e que até então não tínhamos noção de nada que estava prestes a acontecer, era minha irmã que estava mais presente, devido a distância de onde eu morava. Era junho/2012 e eu lembro que minha irmã estava se organizando para ir a um casamento, nunca tivemos uma vida social muito ativa, tudo era muito razoável, por isso nos alegrávamos quando havia algum acontecimento dessa magnitude, por que “casamento” para nós é algo muito lindo (embora eu não tenha tido sorte nos 11 anos que vivi em um, sem muito sucesso, mas isso são relatos para outra hora), nos preparativos eu lembro que o vestido da convidada da casa tinha sido bordado e reformado á mão por nossa genitora. Os sintomas já se apresentavam, mas ela não queria ir ao médico, por que sempre foi muito protetora, sempre amou meu pai intensamente, não só como marido, mas acima de tudo como filho desde 2010, quando ele teve um enfarto gravíssimo, resultando na necrose de 70% do seu coração. Ela achava que ele não conseguiria se virar com os remédios, se por ventura ela se ausentasse.

Os 15 dias anterior a sua primeira internação foi de muito sofrimento, mas ela era uma fortaleza, e preferia se tratar com medicamentos caseiros e a restrição alimentar. Na semana da internação íamos dias alternados buscar ajuda nos hospitais, onde ela era medicada e liberada para ir embora. Foi quando no dia do casamento levamo-la ao Hospital Geral de Fortaleza (HGF), onde foi solicitado sua internação imediata por que seus rins estavam totalmente parados.  Tudo foi suspenso: A festa de casamento que estava marcada, todos os nossos planos e acima de tudo, nossas vidas.

A partir daí era tudo muito difícil, não tínhamos horário, não tínhamos descanso. A rotina para acompanhar um ente doente é muito desgastante, ainda mais quando não se tem nenhum tipo de convênio médico, quando optamos em lutarmos juntas e sozinhas. Ficamos mergulhadas numa piscina de horror, onde a temperatura do local era fria e nossos corações também estavam ficando amargurados de tanto descaso.

Quando tudo começou eu me questionei muito o fato de sermos só nós duas, me perguntei muito: “Será que se tivéssemos mais irmãos a carga seria menor? ” Mas hoje vejo que não poderia ser diferente, nossa guerreira realmente merecia soldados leais na sua batalha, e pelo que vivemos chegamos à conclusão que quantidade não influi em nada, quando temos que enfrentar grandes guerras. É mais valioso dois soldados cansados mas fortes e resistentes, do que 10 que ficam se esquivando e arrumando desculpas na hora da retribuição.

Éramos só nós duas no início e permanecemos assim desde então. Muitos de nossos parentes se solidarizavam ás vezes para que pudéssemos viver um pouco, mas agíamos como cães de guarda, a sensação de inquietude era visível só de pensar em deixa-la com outra pessoa que não fossem uma de nós.

Vivenciamos muitas cenas tristes de abandono de filhos com seus pais, o olhar triste de muitos velhinhos até hoje não sai da minha mente quando fecho meus olhos, seguido da vergonha no rosto deles por se sentirem tão fragilizados fisicamente a ponto de se considerarem peso morto na vida de seus filhos, os maus tratos também eram absurdos como se ficar doente fosse opcional e ficar velho também.

Sempre tivemos muito diálogo entre nós duas, e muito zelo, através dessas virtudes o verdadeiro sentido de irmandade foi firmado e solidificado.

Hoje vejo que todos os ensinamentos que minha mãe se esforçou tanto para nos passar faz-se vivo dentro de nós, hoje entendo por que somos só nós duas, por que o que falta nela sobra em mim, a paciência que em mim é um pouco escassa sobra nela, a razão que em mim é permanente se completa com os seus ilogismos, enfim nesse mundo tão incerto que vivemos somos seres humanos imperfeitos que se encaixam perfeitamente quando o assunto são nossos pais e a nossa irmandade..."o que seria de mim sem ela e dela sem mim???"

Posso não ter tido sorte nos 11 anos dos quais falei por cima, mas fui e sou muito abençoada por tê-la como irmã, e digo até que a expressão "alma gêmea" se intitula bem na nossa relação. Por tudo que passamos não visualizo outra pessoa como companhia, não vejo “as filhas da D. Irene” com personagens diferentes.

No momento de dor é fundamental que se tenha um porto seguro que sinta tudo com a mesma intensidade, é preciso realmente ter uma irmandade altruistica e leal, onde os intuitos sejam o mesmo e os olhares se direcionem para o mesmo horizonte. A hora da retribuição muitas vezes é longa, e é muito dificil, mas feliz é aquele que consegue cumpri-la com satisfação e amor, por que quando tudo acabar seu coração deve ficar cheio de saudades e não de remorso.